sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Desilusão...



" Feliz do homem que não espera nada, pois nunca terá desilusões"
Alexander Pope




Hoje, a propósito de um amigo que "desapareceu" de um momento para o outro sem avisar, uma amiga comum perguntou-me se eu não estava desiludida e magoada. Respondi, prontamente, que não. Admirada com a minha resposta, questionou-me se eu já estava a contar com tal postura. Respondi que não.

Bastou um simples olhar para constatar que ela não entendia a minha postura. De facto, como era possível eu não estar desiludida e/ou magoada com uma atitude incompreensível se eu, ainda por cima, não estava à espera de tal.

Expliquei então de que não posso ter desilusões quando não tenho ilusões.

António Gramsci escreveu: "...o desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido".

De facto, a vida ensinou-me à força de que o maior erro que podemos cometer é ter ilusões. 

Tal não significa que se deixe de viver. Que a nossa vida seja vazia ou triste. Ou que não se possa ser feliz. 

Pelo contrário.

Significa apenas e tão só que aproveito todos os momentos que me possam fazer, momentâneamente, feliz. Que deixei de procurar essa quimera que alguém designou de felicidade. Porque perdi muito tempo da minha vida à procura dela e deixei, na sucessão dos segundos, escapar os momentos de felicidade. Porque o que hoje é verdade, amanhã é mentira. O que hoje é amor eterno, amanhã pode ser uma mulher bem mais jovem e jeitosa do que eu. O que hoje é amizade para sempre, amanhã pode ser um leilão de vaidades. O que hoje é o melhor colega de trabalho, amanhã pode ser aquele que, pela calada, fica com o lugar pelo qual tanto lutámos.

Se deixei de acreditar nas pessoas? Não. Deixei de acreditar que as pessoas não mudam. Que os afectos são dados adquiridos.

Acredito que as relações não são complicadas. Somos nós, com as exigências do "deve e haver" que as complicámos. Somos nós que pretendemos sempre receber aquilo que damos. E o que damos, já dizia a minha avó, está dado. Não tem retorno. Quanto muito também nos poderão oferecer algo.

No fundo, como disse à minha amiga, acho que aprendi a superar o "sofrer" sem tristezas e/ou amarguras.

Tenham um grande fim-de-semana e tentem ser felizes pelo menos um momento em cada dia.




14 comentários:

S* disse...

Eu não sei lidar com essas coisas... ainda hoje me dói pensar num ex amiga que não me dirige palavra há um ano e dois meses, sem motivo.

NI disse...

S*, não é fácil e não quer dizer que não se sofra. Mas com tantas "pancadas" que se leva começamos a aprender a lidar melhor. Aprendemos a ultrapassar e a relativizar.

Em relação ao caso que apresentas começa a pensar que ela é quem fica a perder. Mais do que tu.

Beijos

Petra disse...

Aproveitar o aqui e agora sempre foi o meu lema... Contudo não é nada... nada fácil. beijinho

Miguel disse...

Ni, não concordo que isto seja a melhor forma de viver. Então não esperamos nada dos outros? Como? Somos máquinas? Não temos sentimentos?

É óbvio que esperamos sempre alguma coisa. Nuns casos coisas boas, noutros casos coisas más. Só não esperamos nada de pessoas com quem não interagimos... pelo menos com determinada frequência.

Esperamos dos outros porque é isso que deve ser, porque pensamos, porque temos sentimentos... Mas também porque há uma aprendizagem inata que nos faz esperar de quem nos rodeia determinadas atitudes.
Em ultimo caso, poderia até dizer que não esperar nada já é estar à espera de qualquer coisa...

Para mim, é normal esperar algo dos outros, tal como é normal que os outros esperem algo de mim.
Se não fosse assim, viveríamos para quê?

E essa coisa de viver o que nos pode fazer, momentaneamente, feliz, é o que, por exemplo, faz quem trai o parceiro/parceira... Naquele momento o que o/a fazia feliz era dar aquela queca e, portanto, dá! Se isso magoa alguém... pois temos pena...
Acho que é um conceito errado, ainda que, se já te conheço alguma coisa, não é este o exemplo a que te referias, se bem que seja, na minha opinião, algo que cabe absolutamente nessa filosofia de vida.

Enfim, Ni, discordo e acho que quando se "cai" aqui é, um pouco, triste... Devemos esperar sempre pois é isso que nos puxa a todos mais para cima, como pessoas.

Miguel disse...

Acho que me entendes, não é?

NI disse...

Miguel, a propósito deste tema alguém me chamou de cínica. Tu dizes que quando alguém chega a tal conclusão, que não espera nada dos outros, é triste. Poderão ambos ter razão. Apenas posso tentar defender a minha ideia. Nada mais do que isso.


Bom, como referes, e bem, não me referia apenas às relações amorosas. Concordo contigo quando dizes que é humano que se espere sempre algo das outras pessoas porque temos sentimentos. Se damos respeito, esperamos respeito. Se damos lealdade, esperamos lealdade. Se confiamos, esperamos que confiem em nós. Eu não vou negar que "espero". O que pretendi dizer é que não crio ilusões quanto ao "retorno".

Por outras palavras,sempre dei o "retorno" por garantido. Era a "minha ilusão" enquanto ser humano com sentimentos. Era quase como uma "exigência". Se eu dou tenho o direito a receber. Foi este postura que mudou. Agora, enquanto ser humano com sentimentos já não tenho tal ilusão. Não dou o retorno por garantido. Se eu respeito uma pessoa, espero que me respeite. Mas se ela não me respeitar o que acontece? Sofro? Perco horas a pensar porque razão tal aconteceu? Já não. Será uma defesa? Uma "couraça"? Não digo que não.

Quanto ao "momentâneamente feliz" penso que entendes o que quero dizer. Não acredito na felicidade e na infelicidade. Acredito em momentos felizes e momentos tristes. E, como bem observaste, não concebo enganar outra pessoa em troca de um momento feliz. Há que ter coragem de resolver as coisas com a pessoa com quem temos uma relação. Não é procurando "momentos felizes" com outra que se resolvem os problemas. Adiam-se e apenas servem para magoar. Mas, claro está, também é a minha opinião.

:)

Beijos

Miguel disse...

Temos que esperar, Ni, caramba!

Entendo essa preocupação em não ter ilusões mas, sejamos honestos, não está nas nossas mãos fazer as outras pessoas serem verdadeiras, honestas, cumpridoras, respeitadoras. Podemos fazer por NÓS sermos assim, mesmo sabendo que aqui e ali falharemos (não conscientemente) mas não podemos exigir isso aos outros. Mas devemos e é normal esperarmos que sejam...

Da mesma que se diz "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti", está implícito que se espera sempre que nos tratem bem se nós tratamos bem alguém...

Não é uma questão de se dar isso por garantido, Ni. A unica coisa que se tem por garantido é que não ficaremos por cá mais que o nosso tempo. O resto...
Temos o direito de receber, sim, porque as pessoas têm o dever de tratar bem os outros. Todos nós.
Voltamos ao assunto dos direitos e dos deveres.
Temos o dever de ser honestos, respeitadores, verdadeiros, etc, para termos o direito que sejam honestos, respeitadores, verdadeiros, etc, connosco!
Pelo menos é assim que eu vejo a coisa e é isso que passo aos meus filhos. Ou pelo menos, tento.

A felicidade e a infelicidade está em nós e não nos outros, Ni. Os outros contribuem para nós estarmos contentes ou tristes em determinadas alturas.
Há muita gente que vive de "momentos felizes". São pessoas que vivem para os picos de emoção... Hoje com um, amanhã com outro...

Enfim, eu entendo o que está por base do teu texto mas acho que não é algo que concorde por principio.
Porque vivemos rodeados de gentinha, não temos de baixar a nossa exigência como pessoas.

bj

Eu Mesma! disse...

Custa-me acreditar que não ficaste desiludida porque não criaste ilusões...

uma amizade por si mesmo cria sempre ilusões... nem que seja a dedicação que se coloca na mesma amizade...

já tive pessoas que desapareceram da minha vida e não... não as voltei a procurar mas sim... fiquei desiludida e muito com essa mesma atitude... sem uma única explicação sem um detalhe que mostrasse a importância da amizade...

Isso sim é uma desilusão ...

NI disse...

Miguel, talvez me tenha cansado de esperar. :)

Eu Mesma, será que me estou a transformar numa pedra? Talvez. E bem tentei construir um castelo como Fernando Pessoa disse. Mas as pedras atiradas foram tantas que acabaram por derrubar o castelo.

Beijos

Miguel disse...

Não acredito que não esperes nada... Podes é não querer dar importância a isso mas lá no fundo, por trás desse muro que ergueste, esperas como é normal...

Ou não fosses tu uma Pessoa sensível!

bj

NI disse...

Miguel, depois dos problemas que a sensibilidade me trouxe, o melhor é fechá-la bem fechadinha.

Beijo

Miguel disse...

E deixa-se de ser sensível assim?

Ora, Ni, aprendemos a lidar melhor com as situações, a não nos desiludirmos tanto e por tanto tempo mas não acredito que a nossa essência mude...

Não é impossível mas acho muito difícil!

NI disse...

Miguel, claro que é difícil contrariar a nossa essência. E vou ao encontro do que afirmas quando escrevo que "aprendi a superar o sofrer sem tristezas ou amarguras". Pelo menos a demonstrar. Fiquei perita.

Beijo

Nota - Começas a conhecer-me bem de mais :)

Miguel disse...

Quem é atento e interessado sabe reconhecer certas pessoas... Não é nada de especial.

Tu mostras tudo aqui, caramba! Basta ter 2 dedos de testa.

;)

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